2009/09/17

DEPOIS DA VISITA À ILHA

Gostei muito da Madeira e dos madeirenses. Aquilo é, de facto, um
jardim, com flora única, mas tambem uma obra ciclópica moldada
pelos colonos que a povoaram. É um local onde, num só dia, podem
ocorrer as 4 estações do ano, devido à orografia do terreno, corrente
dos ventos e abundância de vegetação. Foi um povo heróico, que ao
longo dos séculos trabalhou a terra, em socalcos e elevações que, de
um momento para outro se precipitam do alto de 600 metros para
o mar ou sobem a picos de 1.820 metros, onde costuma nevar...
As velhas estradas rasgadas na rocha basáltica a 300/600 metros
de altura, assim como as levadas (canais de água) construidas para
levar a água onde era mais precisa, foram obra de muitas gerações,
e trabalho forçado de muitos prisioneiros. Plantar a cana do açucar,
plantar batata doce, abóboras ou milho em exíguas parcelas de
terreno, soltas e a alturas de vertigem, sem uso de máquinas ou de
animais era um verdadeiro calvário... Os agricultores do Continente
não têm noção, não conhecem, nem sabem o que é ser "escravo da
terra", trabalhando naquelas condições. Pior ainda, pois vigorava na
Madeira o regime de colónia, um sistema de verdadeira escravidão.
Com o 25 de Abril, a colónia foi abolida. Na última década do Sec. XX
o Governo Regional dá início à construção de estradas, túneis e de
habitações sociais, e, por esta razão, as pessoas abandonam o campo
e vêm para a cidade ou para os locais de construção, onde ganham
melhores salários e têm a possibilidade de mudar de vida.
Nas terras altas da ilha o analfabetismo rondava os 60 por cento, e
os pais recusavam mandar os filhos à escola, por necessidade de mão
de obra, mas tambem pela dificuldade de se deslocarem até onde
havia estabelecimento escolar. O Governo local construiu habitação
para estes madeirenses, que nunca haviam visto uma casa de banho.
Hoje vivem melhor, com mais dignidade. Por isso, esta gente adora
o "presidente Alberto João". Reconhecem nele o novo amo, que lhes
paga, dá casa, e já não prescindem de viver junto da comunidade
local. Temos de ter isto em conta, quando avaliamos o desbocado
Alberto João Jardim. O povo adora-o. O problema do caciquismo e
da "asfixia democrática" na Madeira, deve-se à legislação criada
para a eleição dos representantes do povo, na qual devia constar o
número limite de mandatos, para não haver "eleitos eternamente".
O erro está emendado, agora esperemos que Jardim se vá embora.
Isto tinha que ser dito, porque a Madeira não é do Alberto João: é
dos madeirenses, é dos portugueses. E todos devemos ter orgulho
por termos sido os primeiros a levar "seres humanos" áquela ilha.
Foi a primeira ilha a ser povoada por portugueses, que nada tinham
para além da sua força de trabalho. A terra no Continente era dos
senhores feudais... mas era o povo quem a trabalhava. Ali chegados,
entregaram-se a construir um novo mundo, em terras basálticas,
geradas por convulsões vulcânicas, extintas há milhares de anos.
Toda a ilha de Madeira é um hino ao trabalho ciclópico dos nossos
antepassados. A partir daí, a alma portuguesa foi mundo fora.

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